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sábado, 10 de janeiro de 2015

Promoções de livros do mês: janeiro de 2015

A garimpagem de 2015 começou e aqui estamos com três promoções (e dois lançamentos) muito interessantes do mês de janeiro.
O Fim do Poder
Moisés Naím 
Leya

Sinopse da editora

O mundo vem passando por uma série de transformações. Potências hegemônicas como os Estados Unidos têm de lidar com cada vez mais limitações em sua atuação, e as grandes companhias agora enfrentam a crescente ameaça dos pequenos empreendimentos. O poder, na política ou nos negócios, está se tornando mais fragmentado. Ao longo de O fim do poder, o escritor venezuelano Moisés Naím discute as mudanças pelas quais o mundo vem passando desde meados do século XX e procura explicar por que o poder é hoje tão transitório - e tão difícil de manter e usar -, examinando o papel das novas tecnologias e identificando as forças que estão por trás dessas transformações. 



O Mundo Não Tem mais Tempo a Perder 
Sacha Goldman 
Civilização Brasileira
Lançado em 2015
R$ 25 na Saraiva
Sinopse da editora

Obra publica o documento "Apelo por uma Governança Mundial Solidária", assinado por 18 intelectuais e entregue ao secretário-geral da ONU. Possui nove artigos de autores como Edgar Morin e Peter Sloterdijk e prefácio de Fernando Henrique Cardoso.

Os Inovadores
Walter Isaacson
Companhia das Letras
Lançado em dezembro de 2014

Sinopse da editora

A onipresença dos computadores e da internet às vezes nos faz esquecer como essas invenções são relativamente novas. Se as gerações atuais já nascem mexendo em tablets e smartphones, é estranho pensar que há poucas décadas a computação pertencia ao domínio de cientistas, militares e uns poucos empreendedores de ponta. Mas quem inventou o computador? Quem teve a ideia de criar a internet? Foi perseguindo essa pista que Walter Isaacson, autor das estrondosas biografias de Steve Jobs e Albert Einstein, construiu esta empolgante narrativa, que retrata inovadores bolando máquinas em suas garagens minúsculas, pensadores excêntricos às voltas com grandes questões existenciais, batalhas épicas entre empresas e uma grande dose de bits, chips e fios de cobre.

Surpreendentemente, essa história começa na década de 1830, quando Ada Lovelace, filha do poeta inglês Lord Byron, e Charles Babbage, o matemático que foi a pedra de canto da revolução digital, descrevem em belíssimo ensaio o funcionamento de uma máquina de processar e resolver problemas. Jamais construída, a invenção iria semear, ao longo das décadas seguintes, a imaginação de inovadores ao redor do mundo. Gente como Claude Shannon, o brilhante matemático que criou o conceito de bit (e, com ele, toda uma disciplina), Alan Turing, que ampliou e expandiu as ideias de Babbage, ajudou os aliados a vencer a Segunda Guerra e foi preso em seu país por ser homossexual, ou ainda Grace Hopper, provavelmente a primeira programadora do mundo e uma das muitas mulheres pioneiras da estrada da informação.

A descoberta fundamental de Isaacson é que o computador e a internet foram invenções coletivas, resultado da colaboração de centenas de pessoas ao longo de décadas. Cada inovador contribuiu com uma peça nesse enorme quebra-cabeça, e cada invenção inspirou as gerações seguintes a levar adiante o projeto de um mundo conectado através de máquinas inteligentes e surpreendentes. Isaacson mostra em que medida foi a colaboração entre equipes, mais que o gênio individual, que impulsionou a maior revolução tecnológica da história da humanidade. Assim, empresas como a lendária Bell Labs ou a Texas Instruments tornaram-se celeiros de inovadores, cada qual com sua especialidade, polinizando-se mutuamente.

O resultado foi o computador como o conhecemos: livre e cheio de possibilidades, uma ferramenta para expandir a criatividade de cada um. Essas máquinas gigantescas e caríssimas iriam inspirar as gerações seguintes de inovadores em uma busca comum: a criação de um computador pessoal, que poderia ser operado por qualquer pessoa sem conhecimentos de eletrônica ou programação. É também o início da briga entre Bill Gates e Steve Jobs, narrada por Isaacson em ritmo de thriller. E é, acima de tudo, o início da confluência de dois mundos que até então haviam caminhado separadamente: o PC e a rede. Entram em cena os inovadores que deram a cara do século XXI, como Tim Berners-Lee, o criador da web, e Larry Page e Sergey Brinn, os fundadores do Google que, em meio ao início da era da informação, perceberam que cabia a alguém organizar aquela torrente de dados. Os interessados em tecnologia encontrarão aqui um rico mapa das principais inovações das últimas décadas - do transístor ao microchip, do software livre à tela de toque. Mas o mérito de Isaacson é o foco nas pessoas, e não nos inventos. Assim, a revolução digital aparece como uma história humana, uma empolgante narrativa em torno das grandes ideias e de quem as realizou.

 “Walter Isaacson escreveu um livro inspirador sobre pessoas geniais, em que mostra como o sucesso e a criatividade surgem a partir da colaboração. Os inovadores é uma história fascinante sobre a revolução digital, que relembra inclusive o papel crucial e muitas vezes esquecido que as mulheres tiveram nessa história. Uma lição realmente valiosa sobre como o trabalho em grupo leva a grandes resultados.” - Sheryl Sandberg, COO do Facebook e autora de Faça acontecer “Um grande panorama da história da revolução digital. [...] Uma narrativa forte e emocionante sobre os visionários cujas imaginações continuam a transformar nossas vidas.” - Kirkus review


Trecho de Os Inovadores em PDF

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Fabricio Romano é editor do site, revisor e tradutor como ofício e voyeur da literatura alheia como carma.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

É publicada a capa da continuação em HQ do Clube da Luta


Em 2013, o autor do Clube da Luta, Chuck Palahniuk, anunciou na Comic-Con que publicaria a continuação da história de Tyler, Jack e Marla em história em quadrinhos. Como noticiamos aqui, ele finalmente havia assumido um nome para o narrador (Jack) e relevou um enredo bem estranho:

"Atualmente, Tyler está contando a história, escondido dentro de Jack e pronto para voltar. Jack está apático a tudo e Marla está entediada. O relacionamento deles acabou em um tédio suburbano de meia-idade. Apenas quando o filho deles desaparece, raptado por Tyler, é que Jack é arrastado de volta para o mundo de Mayhem."

No dia 10/12, a Dark House (selo da Marvel Comics) publicou a capa de uma nova HQ, que contará outra visão do final do Clube da Luta e dará dicas de como vai ser a continuação.

capa clube da luta 2

A HQ será lançada em maio de 2015 e é escrita por Chuck Palahniuk, com ilustrações de Cameron Stewart.

É aguardar para ver se isso vai dar certo.

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Fabricio Romano é editor do site, revisor e tradutor como ofício e voyeur da literatura alheia como carma.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Lina Bo Bardi: biografia, exposições e trabalhos


Lina Bo Bardi completaria cem anos no último dia 5 de dezembro e, para homenagear o trabalho da arquiteta, o museu Casa do Benin, em Salvador, Bahia, apresenta a partir do dia 19 a exposição Expo BA/58-64.

Até o dia 3 de fevereiro, a mostra A Casa do Benin no Olhar do Artista do Pelourinho, no mesmo local, com curadoria de Frank Bahia, também traz importantes contribuições de Lina para a arquitetura baiana e relembra obras de outros artistas e arquitetos.

Lina Bo Bardi nasceu em 5 de dezembro de 1914, na Itália, onde formou-se, em 1939, na Faculdade de Arquitetura de Roma. Em 1958, veio a Salvador para conferências na Escola de Belas Artes da UFBA. A capital baiana contou com vários projetos de Lina, como as instalações provisórias do MAM-BA no foyer do Teatro Castro Alves (1960), o Plano de Recuperação do Centro Histórico de Salvador (1986), do qual foi concretizado o Belvedere e o Teatro Gregório de Mattos, a Casa do Benin e a Ladeira da Misericórdia (1987) e a Casa do Olodum (1988). Lina morreu em São Paulo em 20 de março de 1992.

Na quarta-feira (10/12), a TV Brasil traçou a trajetória artística de Lina Bo Bardi em outras cidades, como a Casa de Vidro, o MASP e o SESC Pompeia, em São Paulo.


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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Faça personagens de filmes e séries falarem o que você quiser

Crumbies é um aplicativo de web que permite que você faça personagens icônicos de filmes e séries falarem o que você quiser. Ele busca as palavras escolhidas em um dicionário e faz a montagem da frase com trechos de vídeos.

Pode-se fazer o Rei Leônidas, de 300, o Homer Simpson, os personagens de Monty Python e o Batman gravarem uma mensagem. O aplicativo ainda tem poucas palavras e, quando ele não encontra uma, usa uma gravação, mas ainda assim dá para se viciar montando frases. O Crumbies foi criado por uma empresa de tecnologia e programação chamada Thirty Labs e, é claro, só aceita palavras em inglês.

Fonte: http://www.fastcodesign.com/

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Fabricio Romano é editor do site, revisor e tradutor como ofício e voyeur da literatura alheia como carma.


domingo, 9 de novembro de 2014

Star Wars Episode VII: The Zoeira Awakens


A tão aguardada volta da saga Star Wars, depois da aquisição da franquia pela Disney e com a direção assinada por J. J. Abrams (Lost, Alcatraz, Star Trek), finalmente ganhou um subtítulo, na última semana. Star Wars Episode VII: The Force Awakens (O Despertar da Força, em tradução livre).

Após o anúncio, o The Verge fez uma coleção dos subtítulos "alternativos" feitos por fãs da franquia no Twitter, usando um gerador automático de subtítulos para Star Wars (sim, isso existe). Confira aí:







http://www.theverge.com/a/star-wars-meme

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terça-feira, 22 de outubro de 2013

Tarde Demais Para Morrer Jovem


Esqueça Shakespeare, jogue fora Iracema, o Guarani, não presenteie mais ninguém com essas coisas. Nosso barbudo da vez é Daniel Galera.

Daniel Galera publicou ‘Até o dia em que o cão morreu‘ inicialmente em 2003, pela Editora Livros do Mal, fundada por ele, Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla e, posteriormente, em 2007, pela Companhia das Letras. É seu segundo livro publicado, o antecedente, ‘Dentes Guardados’, contos publicados em sua fase inicial, também publicado pela Livros do Mal, hoje só se encontra, e com certa dificuldade, em algum sebo. O link disponível que havia em PDF em seu site foi removido há poucos meses, uma pena, pois o desenvolvimento de sua escrita nas obras posteriores nos deixa a curiosidade de ler o escritor em formação, tentar descobrir o que o levou a escrever, talvez acreditando que as primeiras obras de um autor são um poço, no qual ele beberá até o fim, para não perder aquilo que usualmente chamam de “essência”. Uma expectativa romântica de nossa parte, certamente Galera não concordaria com ela.

Parece opinião geral o fato de que vivemos tempos estranhos, de que as pessoas estão estranhas, erguemos e derrubamos ídolos em cliques.

Nossa geração parece-se com aquele andarilho descrito por Emerson, estamos correndo a toda velocidade em uma superfície fina de gelo congelado e sabemos que ainda que não tenhamos um rumo escolhido, temos que continuar correndo, a toda velocidade, se não, o gelo quebra, caímos e nos afogamos. É preciso manter-se a toda velocidade, mas pra onde? Pra quê? Se optamos em não correr sobre esse gelo fino que é a atualidade, não “participamos”, poderíamos optar por ser uma classe de marginalizados blasé, com um pé no niilismo, outro na sobrevivência, o personagem de Galera, ainda jovem, escolhe não participar:

“(...) Tenho plena consciência de que estou e permanecerei sozinho. Enquanto o calombo cresce nas minhas costelas, como se o corpo tentasse expulsar um feto maligno, penso que é uma péssima ideia morar num apartamento tão alto, sem telefone, sem conhecer vizinhos. Tento gritar o nome de amigos, minha família, mas os gritos já não saem, e me dou conta de que faz tempo demais que não falo com nenhum deles, ou simplesmente não tenho intimidade suficiente, não me sinto no direito de pedir ajuda a ninguém que me lembro de conhecer.”

O personagem está, assim como todos os protagonistas de Galera, só, eles não posam no time dos vencedores. Eles não se apresentam, não procuram, não insistem, quase não questionam, beiram o fatalismo. Mas o personagem de ‘Até o dia em que o cão morreu‘ é um misantropo na metrópole, que apesar de contemplar do alto de um arranha céu aonde mora o Guaíba cinzento e mais nada, tem que sair à rua, tem que sobreviver e fazer os pais acreditarem que ainda está no jogo. Ele distribui currículos que atestam sua formação universitária em letras, sua proficiência em inglês e russo, não tem telefone, há apenas um colchão e pilhas de livros pelo chão, muito prático, mas nada pragmático o nosso herói.

‘Até o dia em que o cão morreu‘ conta, em suma, a história de um cara que escolheu a derrota e se isolar pra conviver, a seu modo, de bem com isso. Sua companhia é um cachorro vira-lata que trouxe uma noite da rua, e Marcela, que apareceu do nada, sem ser chamada, sem amolações e joguinhos de conquista. Marcela apareceu e ele não suporta sua presença em demasia, embora sempre aguarde seu retorno, com sua vivacidade, sua beleza original, seu sexo, seus planos, suas crenças no futuro, sempre no futuro. Ao contrário do nosso protagonista, Marcela não vive o presente, não apreende os instantes, mas ela também está só, circulando sua beleza pela cidade barulhenta em uma profissão em que é um pedaço de carne ainda em bom estado. Marcela precisa aproveitar cada dia para trabalhar como modelo, aprender inglês, fazer inúmeros testes e comparecer em eventos com gente que a enoja para juntar dinheiro e realizar seus “sonhos”.

Marcela acredita que há um mundo a conquistar, que a vida é feita de etapas até o sucesso, que a liberdade precisa ser conquistada, depois, depois, depois que ela vencer.

“(...) O que é a vida pra ti, afinal? Eu teria rido da pergunta, mas o clima e a ocasião pediam uma resposta, e então pedi a ela que imaginasse quando o homem ainda era um macaco, ela disse tá, agora imagina antes disso, os animais cada vez mais rudimentares, a evolução ao avesso, os répteis, anfíbios, peixes, aqueles caranguejinhos pequenos que existem até hoje, moluscos, tá imaginei, agora imagina os seres microscópios, protozoários, bichinhos unicelulares que se dividem no meio, tá, agora imagina o caldo primordial, quando o planeta ainda era uma bola de enxofre fervente, imagina o exato momento em que, pela primeira vez, motivadas pela alta pressão e temperatura, algumas substâncias químicas inorgânicas se combinaram formando um aminoácido que, por razões aleatórias era capaz de se multiplicar, tá, agora volta mais ainda, imagina as partículas que formam essas substâncias químicas, os átomos, os prótons e os elétrons e nêutrons e a grande quantidade de vazio de que eles são formados, tá, agora imagina os quarks, aquela coisa ainda menor que forma todo o resto, tá, oquei, pode parar aí no quark, agora mentaliza bem ele e vai se afastando, pensa no átomo, no aminoácidos, nas amebas, nos cachorros, nos seres humanos, no planeta Terra, sistema solar, nossa galáxia, nos milhões de outras galáxias, vai se afastando cada vez mais até que as galáxias sejam partículas insignificantes dançando no meio do nada, e agora te afasta mais um pouco. Imaginou? Pois eu acho que isso dá uma boa ideia do que é a vida.

Ocorre que, ainda que a contragosto, estamos imersos no mundo, sentimos as coisas, as pessoas nos tocam e talvez uma porção de nós tenha algo relevante a dizer, porque se questionou, desacelerou no gelo fino, aceitou a queda e talvez tenha encontrado um motivo para nadar, para seguir em frente.

“(...) O trânsito parou e naquela mistura de crepúsculo, temporal e noite, as lanternas vermelhas dos carros e as luzes verdes dos semáforos brilhavam com uma intensidade fora do comum, um bonito festival pros meus sentidos ainda atordoados pela anestesia. Os pedestres se protegiam como era possível, guerreando com guarda-chuvas, se amontoando debaixo de marquises e paradas de ônibus, alguns poucos enfrentando a chuva com a resignação de quem sabe que vai se molhar de qualquer jeito. Centenas de estranhos que não significavam nada pra mim, mas observá-los pela janela embaçada me dava uma comoção esquisita.

Então me dei conta de que chegaria em casa e não estaria sozinho, a Marcela estaria lá, deitada no meu colchão de casal, doente, e isso me trouxe um inesperado entusiasmo. Queria chegar ao meu apartamento como nunca quis antes, fazer um café, olhar os relâmpagos através das janelas largas, conversar com ela, me enrolar no cobertor ao lado do seu corpo quente de febre e esperar. Atravessei o saguão do prédio aos saltos, contabilizei com impaciência a passagem de cada andar, girei a chave na fechadura, e ao abrir a porta percebi imediatamente o vazio. Fui pro quarto, só pra confirmar o que já sabia. Ela tinha ido embora."

Galera consegue usar de uma linguagem informal, que faz dos seus personagens extremamente verossímeis, o que não o impede de escrever descrições virtuosas, mesmo nesse seu segundo livro, uma pequena obra imperdível, porque fere, dói, chaqualha. Quase só quem caiu do cavalo pode ser interessante e é triste que pouca gente esteja disposta a aceitar o tombo. Trata-se de um baita livro e de lá pra cá ainda não nos decepcionamos.

*Esta postagem faz parte de uma série sobre livros do Daniel Galera e de outros autores nacionais atuais.
 
>> Sobre o autor:

Fran Setim

Abadon, O Exterminador

Muitos grandes escritores (e outros nem tanto) sentem a necessidade de, em dado momento da vida, lançar aquela obra definitiva, espécie de ‘passo adiante’, que vai abarcar toda a mitologia pessoal do artista, e ao mesmo tempo resumir, explicar e servir de monólito para a posteridade.

De Ferreira Gullar, com 'Poema Sujo', a James Joyce (Finícius Revém), passando por Philip K. Dick e seu 'Valis', ou 'Zero', de Ignácio de Loyola Brandão, lista de tentativas de livros-limite é grande.

E com este relançamento de 'Abadon, O Exterminador', pela Companhia das Letras (a última edição brasileira datava de 1981, pela Francisco Alves) temos a oportunidade de conferir, pela primeira vez ou novamente, a grande epifania literária do grande escritor argentino Ernesto Sabato (1911–2011).

'Abadon, O Exterminador', de 1974, encerra uma espécie de trilogia iniciada pel’O Túnel' (1948) e prosseguido por 'Sobre Heróis e Tumbas' (1961). Inclusive personagens destes reaparecem, como Pablo, do primeiro livro, e o casal Martin-Alejandra.

Sabato foi muitos – cientista (doutor em Física), militante de esquerda, escritor, pintor e cineasta – e assim são seus livros, especialmente 'Sobre Heróis e Tumbas' e este Abadon: prosa e poesia, ficção e história, e desta vez também crítica literária (com direito a análises do existencialismo francês, com quem mantinha relação) e mesmo relatos biográficos.

Como Philip K. Dick em Valis, o autor fala de si indiscriminadamente em primeira e terceira pessoa, misturando ficção, realidade e mesmo prováveis delírios, entrando e saindo de tempos e espaços numa denúncia apocalíptica

Na página 187, o autor-narrador confessa: “Todos nós somos contraditórios mas talvez os romancistas sejam mais que os outros. Talvez por isso sejam romancistas. Angustiei-me muito com essa dualidade, e só nestes últimos anos parece que começo a entender um pouco.”

Como João Evangelista, Sabato surge como profeta que anuncia e ara o Apocalipse, com a diferença de que só ele parece ver, ouvir e sentir os sinais de que o Julgamento já começou – com a diferença de que o Mal vencerá nesse Dia do Juízo que o escritor delata e relata. Não à toa a epígrafe principal do livro, tirada do Apocalipse (precisamente o versículo 11 do capítulo 9), narra o surgimento do Anjo do Abismo (o ‘Abadon’ do título do livro), após soarem a quinta e a sexta trombetas.

Seus personagens, tímidos e inseguros, estão sempre prestes a desmoronar de ciúme, tristeza, solidão e pavor, assim como é o universo do escritor, onde um indizível Mal parece sempre à sombra, à espreita para um assombro inevitável. Mais do que em toda a obra de Ernesto Sabato, este livro está encharcado de profundo pesar.

O mundo está irremediavelmente degenerado, e as pessoas, imersas nessa degradação, parecem não perceber que caminham para o fim. Não é por acaso que uma das obsessões de Ernesto seja a cegueira. Túmulos, túneis, cegueira, traição, ciúme... as metáforas do escritor sempre contrapõem medos que nos dominam por dentro enquanto o mundo se arruína por fora.

É a sina do homem contemporâneo, perdido no pós-Guerra, no vazio pós-1968, de Hiroxima ao Vietnã, e, no caso do argentino Sabato, entre as ditaduras militares e o peronismo. Como o próprio autor diz na página 19 no livro: “Escrever pelo menos para eternizar alguma coisa: um amor, um ato de heroísmo (...), um êxtase. Aceder ao absoluto.

É um trabalho inconcluso, fragmentado, que reflete o autor olhando para o mundo e para si. Se você gostou de 'Sobre Heróis E Tumbas', pode encontrar 'Abadon, O Exterminador' sem medo; se leu apenas O Túnel, é recomendável ler a trilogia na ordem, se não tanto pela continuidade da história (que nem é tanta assim), ao menos para se acostumar com o caleidoscópio de temas e estilos da narrativa; se, como eu, achou cansativa a mistura de enredos (que não se cruzam muito bem) de 'Sobre Heróis e Tumbas', recomendo ir a este Abadon sem tanta expectativa.

ABADON, O EXTERMINADOR
Autor: Ernesto Sabato
Tradução: Rosa Freire d’Aguiar
Editora: Companhia das Letras
Nº de páginas: 514
Preço: em torno de R$ 63





>> Sobre o autor:
Fábio Vanzo é jornalista, sartriano, corinthiano e guitarrista.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

'Pileques, Drinques e Outras Bebedeiras’: para sorver de um só gole


Álcool e literatura. Impossível dizer exatamente quando o flerte entre eles teve início. É um caso antigo que já teve vários protagonistas em diversos graus de envolvimento, como a trágica entrega de Edgar Allan Poe (1809 – 1849) ou a embriaguez obscena de Bukowski (1920 – 1994). Entre os protagonistas, está F. Scott Fitzgerald (1896 – 1940) e foi ao álcool que o ele dedicou ‘Pileques, Drinques e Outras Bebedeiras’. Não se engane: não é uma apologia. Numa análise rápida, pode até parecer uma narrativa sobre os gloriosos dias etílicos passados em Paris, Nova York (chamada de "a minha cidade perdida" ou em algum outro ponto do mundo em que estivesse acontecendo a melhor das festas, mas não se trata disso. É uma crônica delicada e comovente sobre a fragilidade do talento dissipado num lento processo autodestrutivo.

Há o humor refinado do autor de ‘O Grande Gastby’: “Duas garrafas marrons de vinho do Porto apareceram adiante, ganharam rótulos brancos, transformaram-se em freiras engomadas e nos cauterizaram com olhos santos quando passamos.”). E há a profunda melancolia de quem afirma que "numa noite escura da alma é sempre três horas da madrugada, dia após dia". E, mesmo assim, os capítulos curtos são deliciosos, especialmente "Acompanhe o Sr. e a Sra. F. até o Quarto Número...", sobre a passagem de Scott e sua esposa, a também escritora Zelda, pelos hotéis em que se hospedaram.

Seria irônico dizer que bebi cada palavra? Foi o que aconteceu. Ora tocante, ora triste, ora ácido, mas sempre impecável, preciso e ritmado. Desejei que as pouco mais de cem páginas se multiplicassem, mas talvez isso deixasse um sabor amargo, trouxesse certa ressaca. Esqueça o número de páginas. O livro consegue ser delicado e denso, como numa receita de coquetel perfeita. Não falta nada. Os amigos escritores também são citados, a relação de amor e ódio com Hemingway, e as histórias sobre os bares clandestinos, mas principalmente está lá a escrita impecável de Scott. Eu diria ser uma elegante prosa sobre a paixão de um homem pelos estados alterados da percepção. Pelo álcool, é claro.

Alguns títulos para conhecer melhor Fitzgerald:
O Grande Gatsby
Suave é a Noite
Belos e Malditos
Este Lado do Paraíso
O Último Magnata
O Curioso Caso de Benjamin Button
Seis Contos da Era do Jazz e outras histórias

Pileques, drinques e outras bebedeiras
F. Scott Fitzgerald
Companhia das Letras – Má Companhia 2013

>> Sobre a autora:
Denise Ravizzoni publicou o livro de contos 'As Muitas Que Me Habitam' e escreve porque precisa, precisa do que escreve.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

'A Maçã Envenenada': É melhor queimar do que apagar aos poucos?


Cerca de oito anos após a época das leituras de suas resenhas na falecida revista Entre Livros, no burburinho de leitores e amigos da família na pequena livraria do boêmio bairro Bom Fim, em Porto Alegre, vejo o agora reconhecido escritor Michel Laub.

Sentado ao fundo, atendendo com autógrafos a fila que serpenteia até lá, composta por velhinhos do bairro, amigos da família e tipos caricatos e não de leitores, todos com uma Maçã Envenenada na mão, está ele. E ele é simpático, levanta ao cumprimentar e sorri, não parece recluso nem marqueteiro, parece um cara legal. Um cara legal que sabe escrever bem sobre o que realmente interessa. Pego meu autógrafo naqueles poucos segundos e logo inicio a volta pra casa.

Começo a ler no ônibus. Você sabe se o livro é “daqueles” no máximo pelo primeiro parágrafo, bons e até alguns ótimos livros podem se revelar depois de algumas páginas, mas “aqueles” já começam te tirando o chão na primeira frase, no primeiro paragrafo. É o caso. Chego ao metrô, pondero, penso no barulho, mas não aguento, só mais um pouquinho, e vou lendo. Em casa, começo a perceber que a simplicidade é falsa, estou na metade do livro. Antes de vinte e quatro horas as quase 120 páginas (diagramação ótima, capa linda) estão lidas e fica aquela sensação que devem ter os atropelados que não ficam com lesões expostas, mas alguma coisa dói e incomoda dentro de ti, como que para avisar que em algum lugar lá dentro havia um órgão que não havíamos reparado antes. Ele fica, como em todos “aqueles” livros, se movimentando entre o estômago, o sexo, o coração e a cabeça.

A “Maçã Envenenada”, de Michel Laub, é, à primeira vista, um livro simples, você é levado pela escrita simples de Michel e é aí que está o feitiço, o veneno. Com simplicidade ele cria um enredo em que consegue manter a tensão até o final, você simplesmente não admite não saber, mesmo sabendo que não é isso o que importa em literatura, e, logo, o que aconteceu (?) com aquelas personagens.
Um show do Nirvana no Brasil, o pior show de Kurt Cobain e seu coração já despedaçado, uma multidão jovem dos anos 90 com seus planos e prisões de faculdade, emprego, exército, ter uma banda, ter alguém, ser alguém. Um massacre civil em Ruanda, uma tribo que se converte em soldados à paisana pelas ruas, exibindo seus enormes facões pingando sangue e à procura de mais vítimas: toda a outra tribo. Corpos pendurados, estupros em massa, casas incendiadas, uma menina resiste a esse inferno pra contar ao mundo por que sobreviveu.

Uma geração querendo saber até quão fundo está disposta a ir e se questiona se e por que vale a pena. Camus já disse que a única questão filosófica relevante é o suicídio, é saber se vale a pena ou não viver, continuar. As personagens de Laub são levadas a esse confronto, elas tomam uma decisão em meio a um mundo de acasos, brutalidade e falta de sentido. O livro, embora bem estruturado, não é um jogo estrutural ou mero joguinho filosófico existencialista.

Uma mordida: “De qual parte minha você mais vai sentir falta? Que parte sua faz com que eu sinta falta de você? Não a pior parte, porque essa é fácil de julgar. Você tem a sua, eu tenho a minha, mas essa não é a única coisa que vejo em você e você em mim. Porque eu sei como você pensa. O que você espera de mim. Eu olho para você e é como me ver no espelho. Os mesmos traços, a mesma expressão ao se aproximar. Então você me olha de volta e o meu rosto agora é o seu, o nariz, a cor da pele, o pescoço e o resto do corpo e eu fecho os olhos e me concentro no que está por dentro dessa anatomia, as células e o pulmão que respira e o coração que bate e como é frágil o corpo e a vida inteira ele funciona como um relógio até o instante em que a engrenagem trava pouco antes de você se machucar.”

A “Maçã Envenenada” é o segundo livro da trilogia, iniciada com “Diário da queda”, lançado em 2011, também pela Companhia das Letras. Fico em dívida quanto a este (não por muito tempo), assim como o autor está para com o encerramento desta trilogia, e trilogias, dizem, são arriscadas, mas eu apostaria meus dentes da frente em como ele não vai decepcionar.

Ao que se sabe, o livro tem alguns elementos autobiográficos, mas o que importa é que o autor parece ter estado disposto a ir fundo. Definitivamente não parece um livro escrito pra se esconder ou pra abrir o coração de forma tecnicamente bem escrita num relato meramente autobiográfico, o que é desnecessário avisar sobre um autor e excelente crítico literário como Laub. Ler esse livro talvez te exija ao menos uma fração mínima de autoenfrentamento, que parece ter sido necessário para escrevê-lo, o que pode ser ótimo, se você estiver disposto a ir em frente, se já não estiver apagado.




A Maçã Envenenada
Michel Laub
Companhia das Letras
2013






>> Sobre o autor:
Fran Setim
 
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