Saindo do forno

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

'A Maçã Envenenada': É melhor queimar do que apagar aos poucos?


Cerca de oito anos após a época das leituras de suas resenhas na falecida revista Entre Livros, no burburinho de leitores e amigos da família na pequena livraria do boêmio bairro Bom Fim, em Porto Alegre, vejo o agora reconhecido escritor Michel Laub.

Sentado ao fundo, atendendo com autógrafos a fila que serpenteia até lá, composta por velhinhos do bairro, amigos da família e tipos caricatos e não de leitores, todos com uma Maçã Envenenada na mão, está ele. E ele é simpático, levanta ao cumprimentar e sorri, não parece recluso nem marqueteiro, parece um cara legal. Um cara legal que sabe escrever bem sobre o que realmente interessa. Pego meu autógrafo naqueles poucos segundos e logo inicio a volta pra casa.

Começo a ler no ônibus. Você sabe se o livro é “daqueles” no máximo pelo primeiro parágrafo, bons e até alguns ótimos livros podem se revelar depois de algumas páginas, mas “aqueles” já começam te tirando o chão na primeira frase, no primeiro paragrafo. É o caso. Chego ao metrô, pondero, penso no barulho, mas não aguento, só mais um pouquinho, e vou lendo. Em casa, começo a perceber que a simplicidade é falsa, estou na metade do livro. Antes de vinte e quatro horas as quase 120 páginas (diagramação ótima, capa linda) estão lidas e fica aquela sensação que devem ter os atropelados que não ficam com lesões expostas, mas alguma coisa dói e incomoda dentro de ti, como que para avisar que em algum lugar lá dentro havia um órgão que não havíamos reparado antes. Ele fica, como em todos “aqueles” livros, se movimentando entre o estômago, o sexo, o coração e a cabeça.

A “Maçã Envenenada”, de Michel Laub, é, à primeira vista, um livro simples, você é levado pela escrita simples de Michel e é aí que está o feitiço, o veneno. Com simplicidade ele cria um enredo em que consegue manter a tensão até o final, você simplesmente não admite não saber, mesmo sabendo que não é isso o que importa em literatura, e, logo, o que aconteceu (?) com aquelas personagens.
Um show do Nirvana no Brasil, o pior show de Kurt Cobain e seu coração já despedaçado, uma multidão jovem dos anos 90 com seus planos e prisões de faculdade, emprego, exército, ter uma banda, ter alguém, ser alguém. Um massacre civil em Ruanda, uma tribo que se converte em soldados à paisana pelas ruas, exibindo seus enormes facões pingando sangue e à procura de mais vítimas: toda a outra tribo. Corpos pendurados, estupros em massa, casas incendiadas, uma menina resiste a esse inferno pra contar ao mundo por que sobreviveu.

Uma geração querendo saber até quão fundo está disposta a ir e se questiona se e por que vale a pena. Camus já disse que a única questão filosófica relevante é o suicídio, é saber se vale a pena ou não viver, continuar. As personagens de Laub são levadas a esse confronto, elas tomam uma decisão em meio a um mundo de acasos, brutalidade e falta de sentido. O livro, embora bem estruturado, não é um jogo estrutural ou mero joguinho filosófico existencialista.

Uma mordida: “De qual parte minha você mais vai sentir falta? Que parte sua faz com que eu sinta falta de você? Não a pior parte, porque essa é fácil de julgar. Você tem a sua, eu tenho a minha, mas essa não é a única coisa que vejo em você e você em mim. Porque eu sei como você pensa. O que você espera de mim. Eu olho para você e é como me ver no espelho. Os mesmos traços, a mesma expressão ao se aproximar. Então você me olha de volta e o meu rosto agora é o seu, o nariz, a cor da pele, o pescoço e o resto do corpo e eu fecho os olhos e me concentro no que está por dentro dessa anatomia, as células e o pulmão que respira e o coração que bate e como é frágil o corpo e a vida inteira ele funciona como um relógio até o instante em que a engrenagem trava pouco antes de você se machucar.”

A “Maçã Envenenada” é o segundo livro da trilogia, iniciada com “Diário da queda”, lançado em 2011, também pela Companhia das Letras. Fico em dívida quanto a este (não por muito tempo), assim como o autor está para com o encerramento desta trilogia, e trilogias, dizem, são arriscadas, mas eu apostaria meus dentes da frente em como ele não vai decepcionar.

Ao que se sabe, o livro tem alguns elementos autobiográficos, mas o que importa é que o autor parece ter estado disposto a ir fundo. Definitivamente não parece um livro escrito pra se esconder ou pra abrir o coração de forma tecnicamente bem escrita num relato meramente autobiográfico, o que é desnecessário avisar sobre um autor e excelente crítico literário como Laub. Ler esse livro talvez te exija ao menos uma fração mínima de autoenfrentamento, que parece ter sido necessário para escrevê-lo, o que pode ser ótimo, se você estiver disposto a ir em frente, se já não estiver apagado.




A Maçã Envenenada
Michel Laub
Companhia das Letras
2013






>> Sobre o autor:
Fran Setim
 
Copyright © 2014 Capitu With Lasers. Designed by OddThemes