Saindo do forno

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Abadon, O Exterminador

Muitos grandes escritores (e outros nem tanto) sentem a necessidade de, em dado momento da vida, lançar aquela obra definitiva, espécie de ‘passo adiante’, que vai abarcar toda a mitologia pessoal do artista, e ao mesmo tempo resumir, explicar e servir de monólito para a posteridade.

De Ferreira Gullar, com 'Poema Sujo', a James Joyce (Finícius Revém), passando por Philip K. Dick e seu 'Valis', ou 'Zero', de Ignácio de Loyola Brandão, lista de tentativas de livros-limite é grande.

E com este relançamento de 'Abadon, O Exterminador', pela Companhia das Letras (a última edição brasileira datava de 1981, pela Francisco Alves) temos a oportunidade de conferir, pela primeira vez ou novamente, a grande epifania literária do grande escritor argentino Ernesto Sabato (1911–2011).

'Abadon, O Exterminador', de 1974, encerra uma espécie de trilogia iniciada pel’O Túnel' (1948) e prosseguido por 'Sobre Heróis e Tumbas' (1961). Inclusive personagens destes reaparecem, como Pablo, do primeiro livro, e o casal Martin-Alejandra.

Sabato foi muitos – cientista (doutor em Física), militante de esquerda, escritor, pintor e cineasta – e assim são seus livros, especialmente 'Sobre Heróis e Tumbas' e este Abadon: prosa e poesia, ficção e história, e desta vez também crítica literária (com direito a análises do existencialismo francês, com quem mantinha relação) e mesmo relatos biográficos.

Como Philip K. Dick em Valis, o autor fala de si indiscriminadamente em primeira e terceira pessoa, misturando ficção, realidade e mesmo prováveis delírios, entrando e saindo de tempos e espaços numa denúncia apocalíptica

Na página 187, o autor-narrador confessa: “Todos nós somos contraditórios mas talvez os romancistas sejam mais que os outros. Talvez por isso sejam romancistas. Angustiei-me muito com essa dualidade, e só nestes últimos anos parece que começo a entender um pouco.”

Como João Evangelista, Sabato surge como profeta que anuncia e ara o Apocalipse, com a diferença de que só ele parece ver, ouvir e sentir os sinais de que o Julgamento já começou – com a diferença de que o Mal vencerá nesse Dia do Juízo que o escritor delata e relata. Não à toa a epígrafe principal do livro, tirada do Apocalipse (precisamente o versículo 11 do capítulo 9), narra o surgimento do Anjo do Abismo (o ‘Abadon’ do título do livro), após soarem a quinta e a sexta trombetas.

Seus personagens, tímidos e inseguros, estão sempre prestes a desmoronar de ciúme, tristeza, solidão e pavor, assim como é o universo do escritor, onde um indizível Mal parece sempre à sombra, à espreita para um assombro inevitável. Mais do que em toda a obra de Ernesto Sabato, este livro está encharcado de profundo pesar.

O mundo está irremediavelmente degenerado, e as pessoas, imersas nessa degradação, parecem não perceber que caminham para o fim. Não é por acaso que uma das obsessões de Ernesto seja a cegueira. Túmulos, túneis, cegueira, traição, ciúme... as metáforas do escritor sempre contrapõem medos que nos dominam por dentro enquanto o mundo se arruína por fora.

É a sina do homem contemporâneo, perdido no pós-Guerra, no vazio pós-1968, de Hiroxima ao Vietnã, e, no caso do argentino Sabato, entre as ditaduras militares e o peronismo. Como o próprio autor diz na página 19 no livro: “Escrever pelo menos para eternizar alguma coisa: um amor, um ato de heroísmo (...), um êxtase. Aceder ao absoluto.

É um trabalho inconcluso, fragmentado, que reflete o autor olhando para o mundo e para si. Se você gostou de 'Sobre Heróis E Tumbas', pode encontrar 'Abadon, O Exterminador' sem medo; se leu apenas O Túnel, é recomendável ler a trilogia na ordem, se não tanto pela continuidade da história (que nem é tanta assim), ao menos para se acostumar com o caleidoscópio de temas e estilos da narrativa; se, como eu, achou cansativa a mistura de enredos (que não se cruzam muito bem) de 'Sobre Heróis e Tumbas', recomendo ir a este Abadon sem tanta expectativa.

ABADON, O EXTERMINADOR
Autor: Ernesto Sabato
Tradução: Rosa Freire d’Aguiar
Editora: Companhia das Letras
Nº de páginas: 514
Preço: em torno de R$ 63





>> Sobre o autor:
Fábio Vanzo é jornalista, sartriano, corinthiano e guitarrista.
 
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