Saindo do forno

sábado, 23 de março de 2013

5 músicas literárias para ouvir/ler

A relação entre música e literatura, principalmente a de caráter poético, é alvo de uma longa e interessante discussão, sobre a divisão, quando possível afirmá-la, que se faz entre estas duas formas de expressão: a poesia (mesmo ela própria sendo livre de um conceito categórico) e a canção -- a forma escrita, sem acompanhamento instrumental ou melódico.

Segundo o Houaiss, temos, em "canção", a seguinte acepção:
1 Rubrica: música.
cada uma das diversas modalidades de composição para ser cantada, de caráter erudito ou popular.
2 Rubrica: literatura.
composição poética de grande elevação e qualidade literária superior.

Em "poética":
Rubrica: literaura.
2 arte de fazer versos ou elaborar composição poética

Ainda, em "poesia":
Rubrica: literatura.
2 composição em versos (livres e/ou de rima), geralmente com associações harmoniosas de palavras, ritmos e imagens

Nesse sentido, qualquer conjunto de versos, em rima ou não, seguindo métrica ou não, poderia ser considerado tanto poesia quanto canção. Há casos em que é evidente a presença de um padrão que as define e em poesias musicadas, como "Navio Negreiro", de Castro Alves, cantada por Caetano Veloso, por exemplo, afirma-se totalmente a eliminação dessa divisão.

Não vamos entrar no mérito da definição dos valores literários e musicais. Isso é apenas uma lista. Mas eu precisava de uma introdução para colocar Racionais e Vinícius de Moraes na mesma lista sem apanhar na rua.

5 músicas literárias para ouvir/ler


1.
Chico Science e Nação Zumbi -- Da Lama ao Caos
Chico Science, assim como seu parceiro Fred Zero Quatro, tem uma relação muito próxima com a literatura. Em várias canções, Chico evoca Josué Apolônio de Castro, o Josué de Castro. "Ô Josué, nunca vi tamanha desgraça / Quanta mais miséria tem, mais urubu ameaça". Josué de Castro foi um grande articulador de movimentos políticos, escritor e sociólogo. "Homens e Caranguejos", romance escrito por Josué, está todo em Nação Zumbi.

"Metade da população não dorme porque está com fome; a outra metade não dorme porque tem medo de quem está com fome". 

Isso é Josué de Castro. Isso é Chico Science e Nação Zumbi.

2.
Tom Waits -- Clap Hands
Em "Rain Dogs", disco lançado em 1985, todas as músicas são carregadas com uma imagem urbana, maldita e etílica. Ouço o Waits e logo me vem alguma passagem da prosa de João Antônio, com "Malagueta, Perus e Bacanaço", ou João do Rio, com "A Alma Encantadora das Ruas". Waits, que não esconde sua admiração por Bukowski, comentou sobre o álbum:

"Pessoas que vivem na rua. Você sabe como depois da chuva você vê todos esses cães que parecem perdidos, andando por aí. A chuva remove todo o odor, toda orientação deles. Então, todas as pessoas no álbum estão entrelaçadas por alguma maneira física de compartilhar essa dor e esse desconforto."

Literatura marginal de boca cheia.

3.
Paulo Picanha de Tharso, em homenagem a Mário Bortolotto  -- Nossa Vida Não Vale um Chevrolet
A composição é um blues de Mário Bortolotto, da banda Saco de Ratos, com o mesmo nome da peça baseada no romance publicado por ele, mas não é Bortolotto, no vídeo, estou sabendo. É Paulo Picanha de Tharso, cantando em um bar barulhento, bebendo e fumando. O que posso fazer? É uma canção poética que pede bar, fumaça e a voz de Paulo de Tharso.

4.
Vinícius de Moraes -- Canto de Ossanha
Ossanha é a entidade do candomblé responsável pelas plantas e folhas medicinais. Composta e musicada por Vinícius de Moraes e Baden Powell, Canto de Ossanha tem muito a ver com o poeta e romancista Mário de Andrade, que tinha grande interesse na cultura religiosa africana e negra, tanto que reuniu diversas imagens de objetos das liturgias do candomblé em livro, a partir de uma documentação do acervo cuja curadoria foi do próprio poeta, nos anos 1937/1938.

5.
Racionais MCs -- Jesus Chorou
Atenção aos primeiros versos da canção, é a poesia cantada, ou falada, como é a linguagem do rap, da miséria e da falta de esperança de que autores como Maiakóvski e Brecht dedicaram páginas. Há prosas mais íntimas da atual realidade violenta da música nas obras de Rubem Fonseca, Marcelino Freire, Ferréz e do colombiano Fernando Vallejo.  


>> Sobre o autor:
Fabricio Fabricio Romano é editor do site, revisor e tradutor como ofício e voyeur da literatura alheia como carma.
 
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