
Álcool e literatura. Impossível dizer exatamente quando o flerte entre eles teve início. É um caso antigo que já teve vários protagonistas em diversos graus de envolvimento, como a trágica entrega de Edgar Allan Poe (1809 – 1849) ou a embriaguez obscena de Bukowski (1920 – 1994). Entre os protagonistas, está F. Scott Fitzgerald (1896 – 1940) e foi ao álcool que o ele dedicou ‘Pileques, Drinques e Outras Bebedeiras’. Não se engane: não é uma apologia. Numa análise rápida, pode até parecer uma narrativa sobre os gloriosos dias etílicos passados em Paris, Nova York (chamada de "a minha cidade perdida" ou em algum outro ponto do mundo em que estivesse acontecendo a melhor das festas, mas não se trata disso. É uma crônica delicada e comovente sobre a fragilidade do talento dissipado num lento processo autodestrutivo.
Há o humor refinado do autor de ‘O Grande Gastby’: “Duas garrafas marrons de vinho do Porto apareceram adiante, ganharam rótulos brancos, transformaram-se em freiras engomadas e nos cauterizaram com olhos santos quando passamos.”). E há a profunda melancolia de quem afirma que "numa noite escura da alma é sempre três horas da madrugada, dia após dia". E, mesmo assim, os capítulos curtos são deliciosos, especialmente "Acompanhe o Sr. e a Sra. F. até o Quarto Número...", sobre a passagem de Scott e sua esposa, a também escritora Zelda, pelos hotéis em que se hospedaram.
Seria irônico dizer que bebi cada palavra? Foi o que aconteceu. Ora tocante, ora triste, ora ácido, mas sempre impecável, preciso e ritmado. Desejei que as pouco mais de cem páginas se multiplicassem, mas talvez isso deixasse um sabor amargo, trouxesse certa ressaca. Esqueça o número de páginas. O livro consegue ser delicado e denso, como numa receita de coquetel perfeita. Não falta nada. Os amigos escritores também são citados, a relação de amor e ódio com Hemingway, e as histórias sobre os bares clandestinos, mas principalmente está lá a escrita impecável de Scott. Eu diria ser uma elegante prosa sobre a paixão de um homem pelos estados alterados da percepção. Pelo álcool, é claro.
Alguns títulos para conhecer melhor Fitzgerald:
O Grande Gatsby
Suave é a Noite
Belos e Malditos
Este Lado do Paraíso
O Último Magnata
O Curioso Caso de Benjamin Button
Seis Contos da Era do Jazz e outras histórias

Pileques, drinques e outras bebedeiras
F. Scott Fitzgerald
Companhia das Letras – Má Companhia
2013
| Denise Ravizzoni publicou o livro de contos 'As Muitas Que Me Habitam' e escreve porque precisa, precisa do que escreve. |
