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Esqueça Shakespeare, jogue fora Iracema, o Guarani, não presenteie mais ninguém com essas coisas. Nosso barbudo da vez é Daniel Galera.
Daniel Galera publicou ‘Até o dia em que o cão morreu‘ inicialmente em 2003, pela Editora Livros do Mal, fundada por ele, Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla e, posteriormente, em 2007, pela Companhia das Letras. É seu segundo livro publicado, o antecedente, ‘Dentes Guardados’, contos publicados em sua fase inicial, também publicado pela Livros do Mal, hoje só se encontra, e com certa dificuldade, em algum sebo. O link disponível que havia em PDF em seu site foi removido há poucos meses, uma pena, pois o desenvolvimento de sua escrita nas obras posteriores nos deixa a curiosidade de ler o escritor em formação, tentar descobrir o que o levou a escrever, talvez acreditando que as primeiras obras de um autor são um poço, no qual ele beberá até o fim, para não perder aquilo que usualmente chamam de “essência”. Uma expectativa romântica de nossa parte, certamente Galera não concordaria com ela.
Parece opinião geral o fato de que vivemos tempos estranhos, de que as pessoas estão estranhas, erguemos e derrubamos ídolos em cliques.
Nossa geração parece-se com aquele andarilho descrito por Emerson, estamos correndo a toda velocidade em uma superfície fina de gelo congelado e sabemos que ainda que não tenhamos um rumo escolhido, temos que continuar correndo, a toda velocidade, se não, o gelo quebra, caímos e nos afogamos. É preciso manter-se a toda velocidade, mas pra onde? Pra quê? Se optamos em não correr sobre esse gelo fino que é a atualidade, não “participamos”, poderíamos optar por ser uma classe de marginalizados blasé, com um pé no niilismo, outro na sobrevivência, o personagem de Galera, ainda jovem, escolhe não participar:
“(...) Tenho plena consciência de que estou e permanecerei sozinho. Enquanto o calombo cresce nas minhas costelas, como se o corpo tentasse expulsar um feto maligno, penso que é uma péssima ideia morar num apartamento tão alto, sem telefone, sem conhecer vizinhos. Tento gritar o nome de amigos, minha família, mas os gritos já não saem, e me dou conta de que faz tempo demais que não falo com nenhum deles, ou simplesmente não tenho intimidade suficiente, não me sinto no direito de pedir ajuda a ninguém que me lembro de conhecer.”
O personagem está, assim como todos os protagonistas de Galera, só, eles não posam no time dos vencedores. Eles não se apresentam, não procuram, não insistem, quase não questionam, beiram o fatalismo. Mas o personagem de ‘Até o dia em que o cão morreu‘ é um misantropo na metrópole, que apesar de contemplar do alto de um arranha céu aonde mora o Guaíba cinzento e mais nada, tem que sair à rua, tem que sobreviver e fazer os pais acreditarem que ainda está no jogo. Ele distribui currículos que atestam sua formação universitária em letras, sua proficiência em inglês e russo, não tem telefone, há apenas um colchão e pilhas de livros pelo chão, muito prático, mas nada pragmático o nosso herói.
‘Até o dia em que o cão morreu‘ conta, em suma, a história de um cara que escolheu a derrota e se isolar pra conviver, a seu modo, de bem com isso. Sua companhia é um cachorro vira-lata que trouxe uma noite da rua, e Marcela, que apareceu do nada, sem ser chamada, sem amolações e joguinhos de conquista. Marcela apareceu e ele não suporta sua presença em demasia, embora sempre aguarde seu retorno, com sua vivacidade, sua beleza original, seu sexo, seus planos, suas crenças no futuro, sempre no futuro. Ao contrário do nosso protagonista, Marcela não vive o presente, não apreende os instantes, mas ela também está só, circulando sua beleza pela cidade barulhenta em uma profissão em que é um pedaço de carne ainda em bom estado. Marcela precisa aproveitar cada dia para trabalhar como modelo, aprender inglês, fazer inúmeros testes e comparecer em eventos com gente que a enoja para juntar dinheiro e realizar seus “sonhos”.
Marcela acredita que há um mundo a conquistar, que a vida é feita de etapas até o sucesso, que a liberdade precisa ser conquistada, depois, depois, depois que ela vencer.
“(...) O que é a vida pra ti, afinal? Eu teria rido da pergunta, mas o clima e a ocasião pediam uma resposta, e então pedi a ela que imaginasse quando o homem ainda era um macaco, ela disse tá, agora imagina antes disso, os animais cada vez mais rudimentares, a evolução ao avesso, os répteis, anfíbios, peixes, aqueles caranguejinhos pequenos que existem até hoje, moluscos, tá imaginei, agora imagina os seres microscópios, protozoários, bichinhos unicelulares que se dividem no meio, tá, agora imagina o caldo primordial, quando o planeta ainda era uma bola de enxofre fervente, imagina o exato momento em que, pela primeira vez, motivadas pela alta pressão e temperatura, algumas substâncias químicas inorgânicas se combinaram formando um aminoácido que, por razões aleatórias era capaz de se multiplicar, tá, agora volta mais ainda, imagina as partículas que formam essas substâncias químicas, os átomos, os prótons e os elétrons e nêutrons e a grande quantidade de vazio de que eles são formados, tá, agora imagina os quarks, aquela coisa ainda menor que forma todo o resto, tá, oquei, pode parar aí no quark, agora mentaliza bem ele e vai se afastando, pensa no átomo, no aminoácidos, nas amebas, nos cachorros, nos seres humanos, no planeta Terra, sistema solar, nossa galáxia, nos milhões de outras galáxias, vai se afastando cada vez mais até que as galáxias sejam partículas insignificantes dançando no meio do nada, e agora te afasta mais um pouco. Imaginou? Pois eu acho que isso dá uma boa ideia do que é a vida.”
Ocorre que, ainda que a contragosto, estamos imersos no mundo, sentimos as coisas, as pessoas nos tocam e talvez uma porção de nós tenha algo relevante a dizer, porque se questionou, desacelerou no gelo fino, aceitou a queda e talvez tenha encontrado um motivo para nadar, para seguir em frente.
“(...) O trânsito parou e naquela mistura de crepúsculo, temporal e noite, as lanternas vermelhas dos carros e as luzes verdes dos semáforos brilhavam com uma intensidade fora do comum, um bonito festival pros meus sentidos ainda atordoados pela anestesia. Os pedestres se protegiam como era possível, guerreando com guarda-chuvas, se amontoando debaixo de marquises e paradas de ônibus, alguns poucos enfrentando a chuva com a resignação de quem sabe que vai se molhar de qualquer jeito. Centenas de estranhos que não significavam nada pra mim, mas observá-los pela janela embaçada me dava uma comoção esquisita.
Então me dei conta de que chegaria em casa e não estaria sozinho, a Marcela estaria lá, deitada no meu colchão de casal, doente, e isso me trouxe um inesperado entusiasmo. Queria chegar ao meu apartamento como nunca quis antes, fazer um café, olhar os relâmpagos através das janelas largas, conversar com ela, me enrolar no cobertor ao lado do seu corpo quente de febre e esperar. Atravessei o saguão do prédio aos saltos, contabilizei com impaciência a passagem de cada andar, girei a chave na fechadura, e ao abrir a porta percebi imediatamente o vazio. Fui pro quarto, só pra confirmar o que já sabia. Ela tinha ido embora."
Galera consegue usar de uma linguagem informal, que faz dos seus personagens extremamente verossímeis, o que não o impede de escrever descrições virtuosas, mesmo nesse seu segundo livro, uma pequena obra imperdível, porque fere, dói, chaqualha. Quase só quem caiu do cavalo pode ser interessante e é triste que pouca gente esteja disposta a aceitar o tombo. Trata-se de um baita livro e de lá pra cá ainda não nos decepcionamos.
*Esta postagem faz parte de uma série sobre livros do Daniel Galera e de outros autores nacionais atuais.
>> Sobre o autor:
| Fran Setim |
