Saindo do forno

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Balada do Amor Eterno, Inabalável e Frustrado

Para ler ao som de In Between Days

Na primeira vez em que vi o Robert Smith, me apaixonei irremediavelmente. Sabia que seria para sempre. Calma! Não confunda com idolatria barata e histeria de fã. Foi paixão mesmo, daquelas avassaladoras, de aquecer e doer o coração.

Aconteceu assim: era uma tarde de chuva e frio no sul, numa década muito, muito, muito distante, quando eu era alegre e jovem. Liguei a TV numa emissora que – na época - fazia jus ao nome e transmitia clipes (bons) quase o dia inteiro e lá estava ele. Cabelos desgrenhado, batom vermelho borrado, delineador preto, visual clássico de poeta deprimido... e sorrindo com aqueles adoráveis dentinhos pontiagudos!!! Cantava In Between Days. A canção era sobre se sentir gelado como se estivesse morto e querer chorar, mas ele sorria. Foi inevitável. Fiquei siderada, paralisada em frente à TV, em transe. Estava amando.

Naquela época Bob ainda não tinha se tornado inspiração para personagem do Tim Burton, nem era o ídolo de pelo menos duas gerações góticos e emos de revista. Era só um cara da Inglaterra com visual estranho que, ao menos para mim, representava um oásis em meio à enxurrada de bandas americanas posers derramadas pelos ralos das gravadoras. Vinha de encontro à minha personalidade ‘sombria feliz’. Afinal, era eu a garota que lia Edgar A. Poe desde os quinze anos, mas sorria para a vida. Servia como uma luva. Pronto: almas gêmeas.

Acompanhei Bob de perto. Em troca, ele fornecia a trilha sonora para pontuar meu filme pessoal. Fomos do vinil ao mp3 juntos. Vi seu álbum de casamento, acompanhei as crises, as formações da banda, a depressão, as turnês, os barracos, a relação com a heroína, o hiato criativo, a volta. Ele também me acompanhava. Escrevia coisas que eu sabia ser pra mim ou que precisava ouvir. Como poderiam não ser? Lovesong, Cut Here, A Letter to Elisa, Why Can I be You, Mint Car, Pictures of You, Close to Me, Wish, High, Never Enough, todas eram minhas. Friday I’m in Love passou a ser meu hino. Ok, The Cure não é a melhor banda do universo, não é a pica das galáxias, mas foi minha cura pessoal para males momentâneos, e sempre me deu conforto.

E, agora, Bob estará pertinho (Just Like Heaven), e por motivos que não preciso comentar, não estarei na plateia. Foda. Sofri com isso, e sei que vou ficar triste por uns dias. Eu e Bob já estamos meio velhos, e acho que não rola mais encontro algum depois deste. Terei que me conformar em assistir ao concerto pela TV. Me sinto um tanto ridícula, mas o desabafo é necessário. Sorry, friends. O momento adolescente vai passar logo e vou seguir em frente, provavelmente ouvindo The Cure (... and again, and again, and again). E um beijo pro Bob Smith.

>> Sobre a autora:
Denise Denise Ravizzoni publicou o livro de contos 'As Muitas Que Me Habitam' e escreve porque precisa, precisa do que escreve.
 
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