Quando a última linha é escrita, fim da angústia?
Nem a pau.
O problema se agrava no dia seguinte, ao ler o que passou a noite toda escrevendo e achar abominável, encontrar falhas e amaldiçoar a si próprio por tamanhas idiotices. Depois perder boas horas para consertar. Passar mais café. Puxar um livro da estante. Tentar um novo método. Por fim, apagar tudo e voltar para a folha em branco.
Com a publicação digital não é diferente.
Um dos problemas de autoria em blogues, ao contrário de uma publicação impressa, que fica guardadinha na estante, segura da autossabotagem, consiste em o autor se ver obrigado a confrontar o próprio trabalho o tempo todo. Lerá aquilo, encontrará erros, lerá novamente, outros erros. Nunca ficará satisfeito com as novas e novas alterações.
A leitura de um livro só é possível ao se deixar de lado todas as distrações para se concentrar unicamente naquilo que é lido.
A internet joga links na sua cara. Bofeteia você com links. Escangalha sua cabeça com alertas de novas mensagens.
Para a felicidade (ou não) daqueles que escrevem em blogues, a vastidão de informações na internet obriga o autor a produzir textos sintéticos e objetivos. Do contrário, o leitor saberá que está sendo enganado, que está perdendo coisas mais bacanas.
Se o leitor fica cansado com extensos detalhes descritivos e vai embora, a culpa certamente não é dele.
É como se você tivesse que contar a estória que um moribundo fosse ouvir no último suspiro. Não tem jeito de pedir ao moribundo esperar mais um pouco para morrer.
Na síntese, a angústia do processo de criação dura menos, embora não seja menos acentuada.
Alcancei esta linha pela nona vez, lembrei da citação do Sabino. “Malcolm Muggeridge afirma que depois de milhares de anos-luz no Inferno...”. Recomeço o texto.
>> Sobre o autor:
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Fabricio Romano é editor do site, revisor e tradutor como ofício e voyeur da literatura alheia como carma. |


