Saindo do forno

quinta-feira, 28 de março de 2013

40 anos de Brando, o cinema e os protestos

Em 27 de março de 1973, na cerimônia do Oscar, houve um momento de tensão e expectativa. Ao chamarem Marlon Brando para receber o prêmio concedido pela atuação (brilhante, por sinal) em O Poderoso Chefão, a plateia presente e os espectadores ligados no evento pelos aparelhos de televisão viram subir ao placo uma moça vestida em trajes apaches. Após alguns murmúrios, olhares atônitos e um curto intervalo de constrangido silêncio, a tal moça identificou-se como Sasheen Folha Pequena e recusou o prêmio em nome de Brando dizendo que “o Oscar carece de qualquer significado no momento em que há minorias que estão sofrendo”. O protesto acontecia por conta do tratamento dado aos nativos americanos por Hollywood e pela TV e, de modo mais contundente, pelo episódio na pequena Wonded Knee, no estado de Dakota do Sul, onde duzentos índios estavam sitiados pela força de segurança após uma série de ações para reivindicar melhores condições de vida nas reservas. Sasheen acrescentou que Brando estaria pessoalmente nos dias seguintes em Wonded Knee prestando solidariedade aos índios. Estava feito o estrago. Brando abriu, dessa forma, um espaço para a contestação e a exposição de escândalos políticos em meio ao palco mais visado e privilegiado do cinema mundial. Conseguiu voltar os olhos de todos para a causa que defendia e para sua figura como ativista. Touchè.

O cara que protestava


Capa da Folha de São Paulo de 1973 (clique para ampliar)
Brando já havia recusado o Globo de Ouro, concedido pela Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood, durante cerimônia de premiação na qual também não compareceu. Alguns atores matariam por um desses. Ele desdenhou. Durante a década de 1960 já havia mostrado seu lado engajado participando de manifestações em favor dos direitos civis e dos direitos dos indígenas e ligando-se a líderes como Luther King, além de manter relações com membros do grupo Panteras Negras. Para o mercado cinematográfico, a atitude do ator foi um choque e tanto, pois até então a cerimônia do Oscar era quase que sagrada; intromissões desse tipo eram cuidadosamente afastadas. Abriu precedente para outros tantos que vieram depois utilizarem o precioso minuto de discurso para advogar por causas diversas. Não sei se ele realmente acreditava no que fazia ou se era pose, mas o fato é que as cerimônias de premiação da época em que Brando exercitava seu protesto deviam ser infinitamente mais animadas e interessantes do que são hoje, quando o pico de emoção fica por conta do tombo gracioso de uma atriz ao subir a escadinha para colocar as mãos na cobiçada estatueta. É isso, os tempos mudaram. Salve Brando, o explícito!

>> Sobre a autora:
Denise Denise Ravizzoni publicou o livro de contos 'As Muitas Que Me Habitam' e escreve porque precisa, precisa do que escreve.
 
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