Antes de qualquer coisa, é definido por road movie um gênero de filme cuja história se desenrola em uma viagem, de preferência de carro, tendo a estrada, portanto, como ambiente e cenário. Mas não necessariamente. Pode ser uma viagem a cavalo, oras. Por que não? Sendo assim, Django Livre, último filme de Quentin Tarantino, seria um misto de western e road movie? Provavelmente não, o western está muito melhor caracterizado, no caso, mas Priscilla, a Rainha do Deserto, de Stephan Elliot, é um road movie e seus protagonistas viajam em um ônibus.
Assim como em uma viagem longa, humores, circunstâncias, paisagens e mudanças de roteiro podem acontecer a qualquer momento e aí está a beleza e a poesia dos road movies, um gênero que usa a estrada como paráfrase para a vida e seus personagens como símbolos/homenagens aos diversos tipos que encontramos ao longo de nossa trajetória. Digamos que os road movies sejam a quintessência da liberdade e desprendimento no cinema.
Todo mundo já pensou em meter o pé na estrada para desanuviar as ideias, para desestressar, para entrar em contato consigo, para reprogramar a vida, para começar de novo, para fugir... não por acaso, entre seus personagens, revelam-se pessoas insatisfeitas, atormentadas, inconformadas, a procura de algo. E não estamos todos, afinal? Os road movies representam nosso espírito aventureiro e, ao que tudo indica, surgiram após a Segunda Guerra Mundial, onde um grande questionamento sobre a vida, frente às atrocidades da guerra, toma o inconsciente coletivo. Apesar de “As Vinhas da Ira”, adaptação cinematográfica do livro homônimo de John Steinbeck, dirigido por John Ford, com Henry Fonda e John Carra dine, considerado o primeiro road movie, ter estreado em 1940, mas para aproveitar toda a publicidade em volta da obra de Steinbeck, que havia ganhado o Pulitzer no ano anterior.
Em termos técnicos, os road movies são quase ready-made, ou semi-prontos. Não desmerecendo de modo algum nossos colegas cineastas, peloamordedeus, eu mesma sei o QUÃO LABORIOSO é fazer um filme, um curta de 15 minutos, que seja – mas, partir sem destino, rumo ao desconhecido por rodovias que atravessam lugares insólitos é uma aventura que rende ótimos cenários naturais (ou seja, garantia de boa fotografia) e normalmente leva os protagonistas a algum tipo de redenção (o que já é um bom começo para um roteiro).
Na maioria dos filmes, eles acabam mais sábios, retornando para casa ou mesmo encontrando um novo lar. Em outras vezes, seguem em uma viagem sem fim ou encontram a redenção até mesmo na morte. Tempos de miséria, como guerras, a Grande Depressão ou em que predominam ideais libertários, como as décadas de 60 e 70 têm sido o principal pano de fundo para boa parte dos road movies. E as estradas norte-americanas, cortando desertos e vales, seu principal cenário, apesar do gênero ter sido explorado por praticamente todos os continentes.
Fiz uma lista com muita dificuldade aqui, com os 10 road movies que mais me marcaram ao longo de 20 anos de cinefilia e posso dizer que estou total e completamente preparada para os xingamentos e tomatadas indignadas, seguidas de frases como: “Mas como você não citou tal filme?” Não, A Estrada para a Perdição, dirigido por Sam Mendes, Kalifornia, de 1993, dirigido por Dominic Sena, com um jovem ator promissor chamado Brad Pitt nem O Mágico de Oz e tampouco Rain Man, com Tom Cruise e Dustin Hoffman estão nessa lista... mas, caraca, só 10! Perdoem-me.
1
Easy Rider – de 1969 – escrito por Peter Fonda, Dennis Hopper e Terry Southern, produzido por Fonda e dirigido por Dennis Hopper (e também estrelado pelos dois).Não poderia deixar de ser citado. É a epítome dos road movies e a história de como foi concebido e gravado é tão interessante quanto à do filme em si, de forma totalmente independente e maluca. Ele foi um marco de uma geração e até mesmo da história do cinema, inaugurando a era New Hollywood, onde os diretores passaram a ter poder autoral sobre as obras que dirigiam, o que antes era de total poder dos grandes estúdios de Hollywood.
Conta a história de dois jovens que cruzam o sul e sudoeste dos EUA a procura de uma razão para viver e da liberdade pessoal. Se isso não é a essência do road movie, eu acabo a matéria por aqui.
2
Estranhos no Paraíso (Stranger than Paradise – 1984, Jim Jarmush)Filme de estreia de Jim Jarmusch, diretor ícone do cinema independente americano. Logo de cara não parece ser um road movie. É preciso esperar a segunda parte para acompanhar a viagem dos protagonistas numa constante fuga do tédio. A história centra-se em Willie, interpretado por John Lurie, um desocupado que mora em Nova York, e recebe a visita surpresa de Eva, uma prima húngara, interpretada por Eszter Balint. Após a partida de Eva para a casa da tia em Ohio, Willie percebe o quanto gosta dela e vai atrás da garota com seu amigo Eddie, papel que coube a Richard Edson. Os três iniciam uma peregrinação que os leva para a Flórida e que aparentemente não terá mais fim em sua busca para escapar da monotonia. Vale destacar a movimentação (ou quase não movimentação) de câmera de Jarmush, a aura de “filme indie”, tremido, sem tratamento de cor, praticamente caseiro e a tradução do título, já que no original, quer dizer “Mais estranho que o Paraíso” e não “Estranhos no Paraíso").
3
Paris, Texas (1984 - Wim Wenders)Possivelmente um dos filmes mais tristes e angustiantes que já vi. É um de seus trabalhos mais conhecidos e aclamados pela crítica e conta com grande elenco e equipe técnica. O roteiro é de L. M. Kit Carson e Sam Shepard; os temas musicais foram compostos por Ry Cooder e a direção de fotografia é de Robby Muller.
Conta a história de Travis (Harry Dean Stanton) um homem que, depois de ser tido como desaparecido por mais de quatro anos, é reencontrado pelo irmão Walt em um hospital na região desértica do Texas, próximo à fronteira com o México. Maltrapilho e com amnésia, é levado por Walt para a sua casa em Los Angeles, onde reencontra Hunter, seu filho de sete anos que foi abandonado pela mãe, Jane. (Nattasja Kinsky, deslumbrante) Inicialmente estranhos, Travis e Hunter iniciam uma reaproximação que culmina em uma grande amizade e também no desejo secreto de reencontrar Jane e reconstruir sua verdadeira família, ao que partem à procura da mãe.
Falar sobre a poesia fotográfica e a genialidade de Wenders é chover no molhado. Seus enquadramentos, sua luz, a cadência de suas cenas, o modo como dirige seus diálogos, o contraponto entre cidade e deserto, é sensacional. O filme trata principalmente sobre alienação da sociedade americana e a busca de suas origens e valores. É muito bonito e dolorido.
Curiosidade: O filme tem como título o nome de uma cidade do Texas, chamada Paris, mas não foi filmado ali. Em vez disso, Paris é mostrada como um lote de terra de propriedade de Travis visto de uma fotografia. A fotografia mostra uma paisagem de deserto, mas na verdade a real Paris fica na beira de uma floresta ao leste do Texas, muito longe de qualquer deserto.
4
Assassinos por Natureza - Natural Born Killers – 1994 – (Oliver Stone, roteiro de Quentin Tarantino)Um de meus filmes prediletos ever. A desconstrução do road movie. Enquanto em Easy Rider os protagonistas viajam para tentar encontrar a liberdade e um sentido para a vida, Mickey ( Woody Harrelson) e Mallory Knox (Juliette Lewis) viajam os EUA simplesmente porque querem sair matando meio mundo.
Convenhamos, é um modo de se libertar. O tesão de Mickey e Mallory é sempre deixar alguém vivo no meio da chacina, para que espalhe a fama dos dois. O repórter Wayne Gale (Robert Downey Jr.) os coloca no programa de televisão American Maniacs. Mesmo a captura deles pela polícia só aumenta a popularidade dos criminosos, o que motiva Gale em transformar tudo num grande circo. Fala novamente sobre alienação americana, mas desta vez não fica concentrada apenas na mente insana dos assassinos. Mostra também a sanha da mídia e a tentativa de sempre tentar transformar tragédias em um grande espetáculo.
O filme é um show à parte. Com um ritmo videoclíptico, cores saturadíssimas, colagens de filmes antigos, histórias em quadrinhos e desenhos animados, linguajar e cenas obscenas, trilha sonora com Nine Inch Nails, Leonard Cohen, Cowboy Junkies e Diamanda Galás, interpretações sempre viscerais de Harrelson e Lewis e roteiro de Quentin Tarantino. Dá pra não AMAR?
Curiosidade: o roteiro do Natural Born Killers é de David Veloz, Richard Rutowski e Oliver Stone, Tarantino pediu para tirar o nome dele dos créditos, fez o primeiro roteiro, mas Stone quis mudar... ele odiou a versão de Oliver Stone.
Leia o restante da lista.
>> Sobre a autora:
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Gabriela Franco respira música, vive a dança, come cinema, bebe literatura, transpira cultura e se arrisca na filosofia. |


